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O casamento de Branca de Neve- Monteiro Lobato Texto de Domínio Público


O casamento de Branca de Neve com o Príncipe Codadade era a primeira grande festa a realizar-se nas Terras Novas. Os príncipes orientais são amigos da grandeza e do luxo. Codadade
quis que o seu casamento derrotasse todos os casamentos havidos até aquela época, e ordenou ao mordomo Abude que não poupasse dinheiro nem coisa nenhuma. Estava resolvido a gastar
metade dos seus tesouros para espantar o mundo com uma tremendíssima festa.
Iniciaram-se imediatamente os arranjos, e os convites foram enviados para todos os personagens da Fábula — menos os monstros. Tia Nastácia, já completamente sarada do veneno de Cupido, encarregou-se dos comes — e era um regalo vê-la na grandiosa cozinha do palácio, de mangas arregaçadas, dirigindo os cem cozinheiros codadadianos. Esses grandes mestres sabiam
fazer os pratos mais raros e caros — faisões com recheio de língua de rouxinol, javalis assados inteiros com molho de néctar furtado ao Olimpo dos gregos; omeletas de ovos da Fênix e outras
aves famosíssimas. Tia Nastácia, entretanto, ria-se deles.
— Ché, tudo isso é muito bom para quem gosta de comer com os olhos. Para quem come com a boca, e mastiga bem, não há comida como a minha — mocotó à baiana, bem apimentado; vatapá com azeite-de-dendê; quibebe, costeleta com anguzinho de fubá; picadinho, virado de feijão com torresmo... Vocês façam esses "pratos bonitezas" que eu faço os meus "pratos-gostosura."
No dia da festa vamos ver quem vence... Para enfeitar o palácio houve uma verdadeira devastação
nas florestas; nos velhos troncos não ficou nem uma só orquídea ou parasita rara. Também houve limpeza nas avencas, begônias e musgos dos lugares úmidos.
Codadade confiou a ornamentação do palácio à deusa Flora, lá do bairro grego — e Flora trouxe a sua amiga Fauna, que é quem toma conta dos animais. Netuno mandou um belíssimo
sortimento de algas do mar — e tanta concha preciosa, e tanto caramujo, que nem cabia no palácio.
— É demais! — exclamou Dona Benta. — Eles estão devastando o mundo.
E a música? Oh, a música! Compareceram todos os rouxinóis das florestas, e todos os sabiás, todas a patativas, todos os canários e melros e até os tico-ticos. Orfeu, que era o maior músico da antiguidade, veio em pessoa dirigir a grande orquestra
— e trouxe a sua miraculosa lira. Dona Benta explicou:
— Este freguês foi educado pelas Musas. Sua lira tem a propriedade de encantar a quem a ouve — seja fera, rio ou árvore.
Tudo cai no enlevo, de boca-aberta e olhos pasmados; as feras choram de ternura; as árvores derramam as folhas como se fossem lágrimas; os rios param de correr, com todos os peixes de
cabecinha de fora...
O Príncipe andava numa lufa-lufa tremenda, porque fazia questão de que não faltasse uma só princesa. Era ele próprio quem redigia os convites.
— Uf! — exclamou num momento de descanso. — Creio que vou reunir todas aqui — não me esqueci de nenhuma.
— Eu sei de uma que não vem — disse Emília. Codadade encarou-a interrogativamente.
— A Bela Adormecida do Bosque. Não vem porque está dormindo...
— Mando acordá-la! — gritou o Príncipe — e deu ordem ao Abude para acordar a Bela Adormecida do Bosque.
No dia da festa, desde cedinho, começaram a chegar carruagens e mais carruagens. Rosa Branca e Rosa Vermelha vieram ao mesmo tempo, apesar de estarem brigadas. Aladino apareceu com a lâmpada a tiracolo. Os heróis gregos surgiram num grupo — Aquiles, vestido de guerreiro, com o famoso escudo ao ombro; Jasão, o chefe dos Argonautas ; Midas, o rei da Frigia; Perseu, o herói que decepou a cabeça da Medusa...
E vieram as semideusas gregas, cada qual mais resplendente de formosura: as Doze Musas; as Três Graças; Filomela, a deusinha dos rouxinóis; Pomona, a ninfa que presidia aos jardins e pomares ; Pirene ...
Quando Pirene apareceu, Emília berrou:
— Lá está a cuja que de tanto chorar se transformou na fonte do Pégaso!...
E veio Psique, a belíssima criatura que conquistou o coração de Cupido moço; e veio a boa Penélope, que fiava uma teia sem fim...
E veio até a Fênix — a ave que renasce das próprias cinzas. Codadade hospedou-a no galinheiro.
E depois dos gregos vieram personagens de outras mitologias, como o Príncipe Mitra, da Pérsia, a personificação do Sol; e Niorde, uma espécie de Netuno da Escandinávia; e a formosa Tisbe, da Babilônia, que causou sem querer a morte do seu amado Píramo.
— Como foi a sua história? — perguntou-lhe Emília.
A bela criatura deu um suspiro.
— Nem queira saber, criaturinha! Certo dia combinei um encontro com o meu amado noivo Píramo — um encontro no túmulo do Rei Nino. Fui; cheguei primeiro — mas apareceu me lá uma terrível leoa de dentes arreganhados. Consegui escapar, mas na fuga perdi um véu que levava. A leoa, furiosa, estraçalhou esse véu. Logo depois veio Píramo; vendo o meu véu todo estraçalhado, supôs que a leoa me houvesse comido — e suicidou-se ...
— Pois então queira aceitar meus pêsames — disse Emília, e saiu correndo a contar a história aos outros.
Depois de Tisbe chegou uma encantadora dançarina hindu — Sundartará, trazendo consigo uma gaiolinha dourada. Emília quis saber o que havia lá dentro. Era um camundongo! A formosa
dançarina do deus Xiva nunca largava esse camundongo — sinal, pensou Emília, de que em outra encarnação ela havia sido gata.
Vinha gente que não acabava mais. Súbito, apareceu uma figurinha de meio palmo. Passou manquitolando, apoiada numa muletinha de pau de fósforo.
— Polegar! — berrou Emília reconhecendo-o — e ao ouvir esse nome Dona Benta sentiu de novo a célebre pontada no coração.
— Meu Deus! — exclamou aflita. — Positivamente estou ficando caduca. Pois não é que deixei o Polegar sozinho no sítio, em companhia do Capitão Gancho?
E era verdade! Na fúria de embarcarem no "Beija-Flor", nem ela, nem tia Nastácia, nem ninguém, se lembrara do pobre estropiadinho lá na enfermaria, com a perna encarangada no gesso. Que judiação!
Polegar chegou e foi direto a Dona Benta. Parecia aflito. — Que há, figurinha?
— O que há — disse ele arrumando-se nas muletas — é que o sítio está ameaçado de ataque. O pirata que a senhora esqueceu lá tentou seduzir o burro e o hipopótamo ...
— Rinoceronte — corrigiu Dona Benta.
— Sim, o chifrudo. Nada conseguindo, retirou-se, danado da vida, rogando mil pragas de milhões e está com intenção de reunir os malfeitores da zona para um ataque ao sítio. Pelo menos
é essa a opinião do Burro Falante. Ora, eu achei de meu dever vir avisar à senhora. Outra novidade é que a sereia fugiu.
Pedrinho ficou danado.
— E como conseguiu chegar até aqui, que é tão longe? — perguntou-lhe Narizinho.
— Para mim não há distâncias — respondeu Polegar. — Com as botas de sete léguas, não respeito quilômetros.
A pontada de Dona Benta ia apertando.
— Como há de ser agora? — disse ela aflita. — Quindim é valente e o Conselheiro é um sábio, mas afinal de contas não passam de quadrúpedes. O sítio não pode ficar entregue unicamente a eles. Que fazer?
Pedrinho foi de opinião que se reforçasse a defesa do sítio, mandando para lá a Quimera e Pégaso. Mas onde estavam eles?
Ninguém sabia. Dona Benta pensou em voltar sem demora.
— E a festa? — disse Narizinho. — Não podemos perder uma festa que vai ser a maior do mundo.
— Também não podemos perder o sítio que é o melhor do mundo — alegou Dona Benta. — Vamos ouvir a opinião de tia Nastácia. Chamem-na.
Tia Nastácia estava nas cozinhas imperiais dirigindo o assamento de mil e trinta e sete faisões. Ao receber o recado de Dona Benta, largou tudo e veio enxugando as mãos no avental.
— Que é, Sinhá?
Dona Benta explicou-lhe a situação. A preta franziu a testa.
— A culpa é nossa, Sinhá. Somos duas velhas de cabeças viradas, que andamos fazendo tanta asneira como as crianças.
Mas asneira de criança tem desculpa; de gente velha não tem. Onde estávamos com o miolo quando saímos do sítio e "se esquecemos" do pobre doentinho? Credo!...
— Mas agora? Que acha que devemos fazer?
— Agora, Sinhá, é fazer como a Emília manda: "fecha" os "zóio" e se "pincha" no abismo. Se o sítio for roubado, a senhora fica morando aqui. Estou gostando muito deste palácio. Que cozinha, Sinhá! Parece uma sala de visitas. Tudo mármore e pratas alumiando. E eu aqui não faço nada — só dou ordens.
Tenho mais de cem ajudantes ...
Não adiantou nada a consulta à preta. Dona Benta fez vir o Visconde. Explicou-lhe a situação.
— E agora, Visconde? Que fazer?
O Visconde coçou as palhinhas de milho do pescoço. Não achou remédio. Os sábios são criaturas indecisas; não resolvem nada.
Emília meteu no meio a colherzinha torta.
— Ora, ora, ora, Dona Benta! — disse ela. — O caso é dos mais simples. Deixamos tudo como está para ver como é que fica.
Se os capangas do Capitão Gancho tomarem posse do sítio, nós daremos um jeito. Se não tomarem, melhor!
Dona Benta achou que a solução da Emília não era solução de coisa nenhuma — mas como já estivesse cansada de pensar naquilo, aceitou-a.
— Pois então fica assim... — e, suspirando, voltou a assistir ao desfile dos grandes personagens convidados.
Vinha gente que não acabava mais; uns, a pé; outros, em riquíssimas carruagens; outros, a cavalo; outros, em cima de elefantes ricamente ajaezados. Dois apareceram em burrinhos — o semi-deus Sileno, gordíssimo e todo enfeitado de rosas, e Sancho Pança.
Pedrinho chamou Sancho para saber notícias de D. Quixote.
— Ah, esse não vem — respondeu o escudeiro.
— Por quê?
— Porque não pode andar. Meu amo meteu-se a combater a Hidra de Lema e ficou descadeirado. A Hidra, que é uma peste, deu-lhe uma tal lambada com a ponta do rabo que ele foi ao chão com seis costelas partidas.
— E onde ficou?
— Deixei meu amo numa caverna que há lá e vim em busca de remédios. Nisto dei com este palácio e esta gentarada entrando — e resolvi entrar também para ver se como alguma coisa. Estou
com uma fome de três dias.
— E os remédios para D. Quixote?
— Isso verei depois. Saco vazio não se põe de pé. Primeiro a pança — depois as costelas de meu amo...

Texto infantil O casamento da Branca de Neve

O casamento de Branca de Neve- Monteiro Lobato Texto de Domínio Público


O casamento de Branca de Neve com o Príncipe Codadade era a primeira grande festa a realizar-se nas Terras Novas. Os príncipes orientais são amigos da grandeza e do luxo. Codadade
quis que o seu casamento derrotasse todos os casamentos havidos até aquela época, e ordenou ao mordomo Abude que não poupasse dinheiro nem coisa nenhuma. Estava resolvido a gastar
metade dos seus tesouros para espantar o mundo com uma tremendíssima festa.
Iniciaram-se imediatamente os arranjos, e os convites foram enviados para todos os personagens da Fábula — menos os monstros. Tia Nastácia, já completamente sarada do veneno de Cupido, encarregou-se dos comes — e era um regalo vê-la na grandiosa cozinha do palácio, de mangas arregaçadas, dirigindo os cem cozinheiros codadadianos. Esses grandes mestres sabiam
fazer os pratos mais raros e caros — faisões com recheio de língua de rouxinol, javalis assados inteiros com molho de néctar furtado ao Olimpo dos gregos; omeletas de ovos da Fênix e outras
aves famosíssimas. Tia Nastácia, entretanto, ria-se deles.
— Ché, tudo isso é muito bom para quem gosta de comer com os olhos. Para quem come com a boca, e mastiga bem, não há comida como a minha — mocotó à baiana, bem apimentado; vatapá com azeite-de-dendê; quibebe, costeleta com anguzinho de fubá; picadinho, virado de feijão com torresmo... Vocês façam esses "pratos bonitezas" que eu faço os meus "pratos-gostosura."
No dia da festa vamos ver quem vence... Para enfeitar o palácio houve uma verdadeira devastação
nas florestas; nos velhos troncos não ficou nem uma só orquídea ou parasita rara. Também houve limpeza nas avencas, begônias e musgos dos lugares úmidos.
Codadade confiou a ornamentação do palácio à deusa Flora, lá do bairro grego — e Flora trouxe a sua amiga Fauna, que é quem toma conta dos animais. Netuno mandou um belíssimo
sortimento de algas do mar — e tanta concha preciosa, e tanto caramujo, que nem cabia no palácio.
— É demais! — exclamou Dona Benta. — Eles estão devastando o mundo.
E a música? Oh, a música! Compareceram todos os rouxinóis das florestas, e todos os sabiás, todas a patativas, todos os canários e melros e até os tico-ticos. Orfeu, que era o maior músico da antiguidade, veio em pessoa dirigir a grande orquestra
— e trouxe a sua miraculosa lira. Dona Benta explicou:
— Este freguês foi educado pelas Musas. Sua lira tem a propriedade de encantar a quem a ouve — seja fera, rio ou árvore.
Tudo cai no enlevo, de boca-aberta e olhos pasmados; as feras choram de ternura; as árvores derramam as folhas como se fossem lágrimas; os rios param de correr, com todos os peixes de
cabecinha de fora...
O Príncipe andava numa lufa-lufa tremenda, porque fazia questão de que não faltasse uma só princesa. Era ele próprio quem redigia os convites.
— Uf! — exclamou num momento de descanso. — Creio que vou reunir todas aqui — não me esqueci de nenhuma.
— Eu sei de uma que não vem — disse Emília. Codadade encarou-a interrogativamente.
— A Bela Adormecida do Bosque. Não vem porque está dormindo...
— Mando acordá-la! — gritou o Príncipe — e deu ordem ao Abude para acordar a Bela Adormecida do Bosque.
No dia da festa, desde cedinho, começaram a chegar carruagens e mais carruagens. Rosa Branca e Rosa Vermelha vieram ao mesmo tempo, apesar de estarem brigadas. Aladino apareceu com a lâmpada a tiracolo. Os heróis gregos surgiram num grupo — Aquiles, vestido de guerreiro, com o famoso escudo ao ombro; Jasão, o chefe dos Argonautas ; Midas, o rei da Frigia; Perseu, o herói que decepou a cabeça da Medusa...
E vieram as semideusas gregas, cada qual mais resplendente de formosura: as Doze Musas; as Três Graças; Filomela, a deusinha dos rouxinóis; Pomona, a ninfa que presidia aos jardins e pomares ; Pirene ...
Quando Pirene apareceu, Emília berrou:
— Lá está a cuja que de tanto chorar se transformou na fonte do Pégaso!...
E veio Psique, a belíssima criatura que conquistou o coração de Cupido moço; e veio a boa Penélope, que fiava uma teia sem fim...
E veio até a Fênix — a ave que renasce das próprias cinzas. Codadade hospedou-a no galinheiro.
E depois dos gregos vieram personagens de outras mitologias, como o Príncipe Mitra, da Pérsia, a personificação do Sol; e Niorde, uma espécie de Netuno da Escandinávia; e a formosa Tisbe, da Babilônia, que causou sem querer a morte do seu amado Píramo.
— Como foi a sua história? — perguntou-lhe Emília.
A bela criatura deu um suspiro.
— Nem queira saber, criaturinha! Certo dia combinei um encontro com o meu amado noivo Píramo — um encontro no túmulo do Rei Nino. Fui; cheguei primeiro — mas apareceu me lá uma terrível leoa de dentes arreganhados. Consegui escapar, mas na fuga perdi um véu que levava. A leoa, furiosa, estraçalhou esse véu. Logo depois veio Píramo; vendo o meu véu todo estraçalhado, supôs que a leoa me houvesse comido — e suicidou-se ...
— Pois então queira aceitar meus pêsames — disse Emília, e saiu correndo a contar a história aos outros.
Depois de Tisbe chegou uma encantadora dançarina hindu — Sundartará, trazendo consigo uma gaiolinha dourada. Emília quis saber o que havia lá dentro. Era um camundongo! A formosa
dançarina do deus Xiva nunca largava esse camundongo — sinal, pensou Emília, de que em outra encarnação ela havia sido gata.
Vinha gente que não acabava mais. Súbito, apareceu uma figurinha de meio palmo. Passou manquitolando, apoiada numa muletinha de pau de fósforo.
— Polegar! — berrou Emília reconhecendo-o — e ao ouvir esse nome Dona Benta sentiu de novo a célebre pontada no coração.
— Meu Deus! — exclamou aflita. — Positivamente estou ficando caduca. Pois não é que deixei o Polegar sozinho no sítio, em companhia do Capitão Gancho?
E era verdade! Na fúria de embarcarem no "Beija-Flor", nem ela, nem tia Nastácia, nem ninguém, se lembrara do pobre estropiadinho lá na enfermaria, com a perna encarangada no gesso. Que judiação!
Polegar chegou e foi direto a Dona Benta. Parecia aflito. — Que há, figurinha?
— O que há — disse ele arrumando-se nas muletas — é que o sítio está ameaçado de ataque. O pirata que a senhora esqueceu lá tentou seduzir o burro e o hipopótamo ...
— Rinoceronte — corrigiu Dona Benta.
— Sim, o chifrudo. Nada conseguindo, retirou-se, danado da vida, rogando mil pragas de milhões e está com intenção de reunir os malfeitores da zona para um ataque ao sítio. Pelo menos
é essa a opinião do Burro Falante. Ora, eu achei de meu dever vir avisar à senhora. Outra novidade é que a sereia fugiu.
Pedrinho ficou danado.
— E como conseguiu chegar até aqui, que é tão longe? — perguntou-lhe Narizinho.
— Para mim não há distâncias — respondeu Polegar. — Com as botas de sete léguas, não respeito quilômetros.
A pontada de Dona Benta ia apertando.
— Como há de ser agora? — disse ela aflita. — Quindim é valente e o Conselheiro é um sábio, mas afinal de contas não passam de quadrúpedes. O sítio não pode ficar entregue unicamente a eles. Que fazer?
Pedrinho foi de opinião que se reforçasse a defesa do sítio, mandando para lá a Quimera e Pégaso. Mas onde estavam eles?
Ninguém sabia. Dona Benta pensou em voltar sem demora.
— E a festa? — disse Narizinho. — Não podemos perder uma festa que vai ser a maior do mundo.
— Também não podemos perder o sítio que é o melhor do mundo — alegou Dona Benta. — Vamos ouvir a opinião de tia Nastácia. Chamem-na.
Tia Nastácia estava nas cozinhas imperiais dirigindo o assamento de mil e trinta e sete faisões. Ao receber o recado de Dona Benta, largou tudo e veio enxugando as mãos no avental.
— Que é, Sinhá?
Dona Benta explicou-lhe a situação. A preta franziu a testa.
— A culpa é nossa, Sinhá. Somos duas velhas de cabeças viradas, que andamos fazendo tanta asneira como as crianças.
Mas asneira de criança tem desculpa; de gente velha não tem. Onde estávamos com o miolo quando saímos do sítio e "se esquecemos" do pobre doentinho? Credo!...
— Mas agora? Que acha que devemos fazer?
— Agora, Sinhá, é fazer como a Emília manda: "fecha" os "zóio" e se "pincha" no abismo. Se o sítio for roubado, a senhora fica morando aqui. Estou gostando muito deste palácio. Que cozinha, Sinhá! Parece uma sala de visitas. Tudo mármore e pratas alumiando. E eu aqui não faço nada — só dou ordens.
Tenho mais de cem ajudantes ...
Não adiantou nada a consulta à preta. Dona Benta fez vir o Visconde. Explicou-lhe a situação.
— E agora, Visconde? Que fazer?
O Visconde coçou as palhinhas de milho do pescoço. Não achou remédio. Os sábios são criaturas indecisas; não resolvem nada.
Emília meteu no meio a colherzinha torta.
— Ora, ora, ora, Dona Benta! — disse ela. — O caso é dos mais simples. Deixamos tudo como está para ver como é que fica.
Se os capangas do Capitão Gancho tomarem posse do sítio, nós daremos um jeito. Se não tomarem, melhor!
Dona Benta achou que a solução da Emília não era solução de coisa nenhuma — mas como já estivesse cansada de pensar naquilo, aceitou-a.
— Pois então fica assim... — e, suspirando, voltou a assistir ao desfile dos grandes personagens convidados.
Vinha gente que não acabava mais; uns, a pé; outros, em riquíssimas carruagens; outros, a cavalo; outros, em cima de elefantes ricamente ajaezados. Dois apareceram em burrinhos — o semi-deus Sileno, gordíssimo e todo enfeitado de rosas, e Sancho Pança.
Pedrinho chamou Sancho para saber notícias de D. Quixote.
— Ah, esse não vem — respondeu o escudeiro.
— Por quê?
— Porque não pode andar. Meu amo meteu-se a combater a Hidra de Lema e ficou descadeirado. A Hidra, que é uma peste, deu-lhe uma tal lambada com a ponta do rabo que ele foi ao chão com seis costelas partidas.
— E onde ficou?
— Deixei meu amo numa caverna que há lá e vim em busca de remédios. Nisto dei com este palácio e esta gentarada entrando — e resolvi entrar também para ver se como alguma coisa. Estou
com uma fome de três dias.
— E os remédios para D. Quixote?
— Isso verei depois. Saco vazio não se põe de pé. Primeiro a pança — depois as costelas de meu amo...

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